O PNDH-3 e o recuo de Vanucchi

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Desapontador. Esta é a palavra que melhor sintetiza a palestra proferida pelo Ministro da Secretaria Especial de Direitos Humanos, Paulo Vanucchi, no auditório do Centro de Convenções da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).

Não que o evento tenha sido ruim. Pelo contrário. O problema é que, na segunda-feira, em Florianópolis, o Ministro jogou a bola para os movimentos sociais e para os estudantes. "Quem garante o PNDH-3 não é o governo, são os movimentos sociais organizados", afirmou. Já no dia seguinte, sai a manchete do Estadão:

"Vannuchi recua em plano de direitos humanos: Pontos polêmicos, que tratam de legalização do aborto, símbolos religiosos, invasões e censura, serão retirados do programa".


Na palestra, Vanucchi demonstrou claramente seus posicionamentos em relação a alguns ministros. "Não tenho nada em comum com o Reinold Stephanes[Desenvolvimento Agrário] ou com o Jobim [Defesa],por exemplo. Mas estamos em um governo de coalizão", disse.

O ministro chegou a responder - e a se alterar - com um estudante de matemática. O rapaz subiu ao palco, "acusou-o" de comunista-terrorista baseado em um livro do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, o qual carregava embaixo do braço. Ustra foi um dos grandes torturadores do DOI-CODI em São Paulo e chegou a torturar Vanucchi pessoalmente.

"É um nó"

Fui o último a perguntar. Me referindo à fala sobre "a responsabilidade é dos movimentos sociais", perguntei ao ministro (não são as palavras exatas)

- Existe uma grande ansiedade dos movimentos sociais em ver o PNDH-3 funcionando. O governo Lula conta com o apoio das principais lideranças dos movimentos sociais dos últimos 15, 20 anos, ao mesmo tempo em que tem 80% de aprovação. Isso não é suficiente para chegar aos militares, aos setores conservadores da igreja e dizer "nós vamos aprovar esse projeto"? Se isso não é suficiente, como é que se faz?

O Ministro respondeu que a questão era "um nó" e que nós não podiamos nos esquecer das milhões de pessoas que deixaram de passar fome, e por aí afora. Ao que me parecia, ele não havia respondido a minha pergunta.

Entretanto, a matéria publicada na edição de hoje do estadão e disponível aqui em PDF, não deixa de ser uma resposta - uma das piores possíveis, diga-se de passagem.

Quem perde nessa história não são os movimentos feministas pró-aborto, nem o MST, nem os movimentos de democratização das comunicações: quem perde é o Brasil, que mais uma vez, vê um governo dito "popular" recuar em questões centrais e em bandeiras históricas do povo organizado.

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