Carta aberta à comunidade acadêmica do Bom Jesus/Ielusc

A associação entre a tirania do dinheiro e a tirania da informação conduz à aceleração dos processos hegemônicos, legitimados pelo “pensamento único”, enquanto os demais processos acabam por ser deglutidos ou se adaptam passiva ou ativamente, tornando-se hegemonizados (Milton Santos, in “O país distorcido”, 2002: 91-92).

Há pouco mais de 15 anos, um grupo de educadores luteranos liderados pelo diretor geral da instituição, pastor Tito Lívio Lermen, decidia implantar o ensino superior no colégio Bom Jesus, em Joinville. É possível que nenhum dos pioneiros imaginasse o alcance e a ousadia daquele gesto, inspirado no caráter emancipatório conferido por Lutero à educação. A comunidade luterana decidia expandir sua ação de ensino, voltando-se para áreas sensíveis para a região Norte de Santa Catarina: a comunicação, a saúde, o desenvolvimento.
Nesse período, a instituição formou centenas de profissionais em ofícios fundamentais ao interesse público (enfermagem, jornalismo, publicidade e propaganda, educação física, turismo e nutrição). Os egressos do Ielusc prestam serviços essenciais à comunidade – e alguns deles já conquistaram destaque nacional por sua atuação. Outros prosseguiram na atividade acadêmica e se destacam no ensino e na pesquisa em Santa Catarina e em grandes universidades brasileiras.
Todo este patrimônio representado pelos egressos e materializado nos projetos pedagógicos dos cursos foi comprometido nas últimas semanas por conta de decisões temerárias tomadas pela direção do Bom Jesus/Ielusc – supostamente em nome da redução de custos e da sobrevivência comercial do empreendimento de ensino. Tais medidas prestam um desserviço à comunidade – que inspirou (e colaborou com) o vitorioso projeto de educação luterana – ao:
a) mutilar os projetos pedagógicos, alterando unilateralmente exigências curriculares, desrespeitando a história de concepção coletiva desses projetos;
b) precarizar a qualidade do ensino reduzindo cargas horárias, eliminando benefícios e demitindo arbitrariamente professores com maior qualificação e ampla experiência didática e profissional, alegadamente para restringir o custo com pessoal a 40% das despesas (percentual incompatível com a educação de qualidade);
c) gerir sob o tacão do autoritarismo e do temor, da humilhação e da falta de respeito aos professores e professoras;
d) desprezar as expectativas e as esperanças dos alunos, endossando uma concepção pedagógica que, submissa ao mercado, despreza ao mesmo tempo a história dos cursos, o compromisso luterano com a educação e a expectativa de autonomia à formação dos profissionais do Ielusc que, justamente, a comunidade de Joinville acostumou-se a esperar.

Como ex-docentes da instituição à qual servimos com zelo e profissionalismo, sentimo-nos no direito e no dever de manifestar nossa posição a respeito da aludida crise e das medidas arbitrárias tomadas para, supostamente, combatê-la. Não é a primeira vez que a instituição passa por situação semelhante e, como em 2005/2006, o corpo docente foi além da crítica. Naquele momento, aceitamos uma proposta do diretor geral da instituição, pastor Tito Lermen, para compor um Grupo de Trabalho representando os/as docentes do ensino superior para estudar e propor soluções aos problemas vividos pelo Ielusc. Obtivemos acesso a dados financeiros, sob o compromisso do sigilo, e produzimos um relatório profundo, com um conjunto de sugestões e propostas. A proposta global foi inteiramente ignorada pela Direção Geral.
Há pelo menos quatro anos, consultorias especializadas em ensino superior faziam avaliações (bastante onerosas, aliás) sobre os fatores estruturais que provocariam uma retração no mercado. Depois do boom representado pela mercantilização do ensino, conduzido pelo então ministro Paulo Renato de Souza no governo FHC, quando o setor cresceu sem critérios e qualidade, o momento posterior, em que nos encontramos, seria de fusão, extinção, encolhimento, incorporações. As megacorporações privadas de fato foram ao mercado de capitais e têm agido no mercado como aves de rapina.
A direção geral do Bom Jesus/Ielusc alega que o ensino superior da instituição está em crise financeira. Para uma análise mais fecunda e profícua da propalada crise, convém afastar, de pronto, qualquer menção à novidade ou surpresa: todos os atuais dirigentes – incluindo-se aí os gestores (coordenadores e diretores de curso) – têm ampla e antiga consciência das características desse mercado.
A contribuição que o Ielusc deu a Joinville nesses anos todos é incomensuravelmente maior que qualquer resultado contábil. Para citar apenas um exemplo: o mercado de comunicação é mais profissional, ético e competente do que dez anos atrás e isso se deve em grande parte à atuação permanente do curso junto à comunidade, combinada à ação dos egressos nas empresas e instituições sociais. As medidas tomadas recentemente comprometem ambos os pólos dessa atuação: tanto a capacidade dos cursos de refletir com autonomia sobre os campos profissionais, quanto a qualidade da formação dos egressos. As decisões da direção geral assemelham o Ielusc aos vendedores de diploma, aos mercadores da educação.
O momento exige diálogo, confiança, verdade e transparência. Sem a valorização do debate – que implica afastar o maniqueísmo do “Ielusc: ame-o ou deixe-o”, sugerido pelo atual coordenador de ensino superior –, as saídas serão cada vez mais arbitrárias e dissociadas do interesse público. A confiança entre direção, professores, alunos e comunidade pode ser reconquistada a partir do resgate do diálogo, sob a égide da verdade e da transparência. Trata-se de um gesto de grandeza ao alcance dos atuais gestores do Ielusc.
Nossas vidas profissionais foram marcadas, profundamente, pelos ensinamentos e vivências relacionados à instituição e à comunidade acadêmica do Bom Jesus/Ielusc. Por essa razão, submetemos ao diálogo as sugestões a seguir, que nos parecem importantes para pensar alternativas que garantam a preservação desse projeto tão caro ao interesse público e ao ensino superior em Santa Catarina e no Sul do país:

(1) Investir na qualificação do quadro docente;
(2) Não reduzir o alcance dos projetos pedagógicos de curso, preservando sua atitude crítica em relação ao mercado;
(3) Buscar parcerias na comunidade para que não faltem condições à prática do bom ensino (combinado com atividades de pesquisa e extensão);
(4) Investir em divulgação mais massiva dos cursos, na perspectiva de aumentar a procura nos vestibulares, a partir de parceria com o mercado publicitário e jornalístico da região;
(5) Criar uma Comissão de Negociação Tripartite, com base na transparência, na boa-fé e no respeito às partes representadas pelos docentes e discentes;
(6) Buscar parcerias estratégicas para romper o isolamento de uma IES que tem muita legitimidade e credibilidade públicas na região de Joinville, mas que precisa se fortalecer em conjunto com instituições de mesma natureza (comunitárias e confessionais) e no âmbito da Rede Sinodal.

Joinville (SC), 19 de julho de 2010.


Prof. Dr. Alexandre Rocha da Silva
Prof. Ms. Álvaro de Azevedo Diaz
Prof. Ms. Ângelo Augusto Ribeiro
Profa. Dra. Anny Liege C. Baggiotto
Profa. Dra. Cátia Inês Schuh Weizenmann
Prof. Ms. Edelberto Behs (ex-diretor do Curso de Comunicação)
Prof. Frederico Carvalho
Prof. Esp. Gastão Cassel
Prof. Ms. Gleber Pieniz
Prof. Dr. Jacques Mick
Prof. Dr. Juciano Lacerda
Profa. Ms. Lígia Mousquer Zuculoto
Prof Dra. Merli Leal Silva (ex-coordenadora do Curso de Publicidade e Propaganda e responsável pela implantação da Agencia Experimental de PP – AEP)
Prof. Ms. Orlando Ferretti
Prof. Dr. Pedro David Russi Duarte
Prof. Dr. Samuel Pantoja Lima (ex-diretor do Curso de Comunicação)
Prof. Sérgio Murillo de Andrade (presidente da Fenaj)
Prof. Ms. Silnei Scharten Soares (ex-coordenador do Curso de Publicidade)
Prof. Ms. Sônia Regina de Oliveira Santos (ex-coordenadora do Curso de Publicidade)

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