O curso de jornalismo não pode morrer

Leonel Camasão*

O que era boato há anos está se confirmando. A crise do Bom Jesus/Ielusc finalmente se concretizou, e agora ameaça um dos maiores patrimônios políticos e culturais da cidade de Joinville nesta década: o único curso de Jornalismo da cidade.

Com menos de 10 anos, o Ensino Superior do Ielusc começou a dar sinais de falência quando cancelaram o vestibular para o curso de Turismo. Até então, todo mundo achava que era um caso isolado. Mas ao era. Logo em seguida, os vestibulares não tinham mais tantos inscritos, e pouco a pouco, foram sendo canceladas novas turmas também na Educação Física.

Agora, o curso de Comunicação é o alvo. Ele já estava se deteriorando, após a demissão de vários professores qualificados, diminuição das horas-aula, dos projetos de extensão como a Revi e o Necom, a erradicação da direção do curso de publicidade, entre outras medidas. Mas agora a coisa complicou. Gleber Pieniz, um dos últimos professores que ainda resistiam à nova política do Ielusc, foi demitido. E a direção anuncia: talvez não haja mais um vestibular para o curso de comunicação no final de 2010.

Todas essas medidas têm graves conseqüências, não só para os alunos, mas para a sociedade. O Ielusc está desmontando o terceiro melhor curso de Jornalismo do Sul do Brasil, que está (ou estava) a frente das federais de Curitiba, Florianópolis e Porto Alegre.
Os cursos de comunicação do Bom Jesus/Ielusc são verdadeiros patrimônios culturais e políticos da cidade. Foi a partir do ensino oferecido por esta instituição que a imprensa e a publicidade locais saíram da era medieval, do clientelismo, da extorsão, e foram profissionalizadas.

Lembro-me do dia em que, na posição de presidente do DCE Florestan Fernandes, eu e outros seis companheiros pedimos a cassação do vereador Lauro Kalfels (PSDB), pela tentativa de suborno de uma profissional do Jornal A Notícia. Apesar do pedido ter sido arquivado, a publicização do caso ajudou a inibir novas ocorrências. Foi também pelos alunos de jornalismo do Ielusc que denunciamos um grave caso de homofobia, quando o radialista Beto Gebaili afirmou ter agredido outro radialista da cidade sob a justificativa de que "em bicha se bate com a mão". Tive a honra de editar essa matéria no finado jornal-mural "Cafeína". O que era apenas exercício de aula se transformou em um debate público, com grande repercussão na cidade.

Esse e outros combates resultaram, em médio prazo, na derrocada de figuras que praticam o pior que pode haver em radialismo, jornalismo e comunicação. É só ver que muitos dos programas de achincalhamento político foram cancelados ou transferidos para emissoras menores.

A formação humana propiciada pelo Ielusc foi parcialmente responsável também pela reorganização do movimento estudantil na cidade. Nos últimos anos, nossos alunos do Ielusc se envolveram em grandes mobilizações contra o aumento das tarifas, pela democratização das comunicações, pelos direitos humanos e por uma sociedade mais justa.

Isso não é qualquer coisa.

A situação não é exclusividade do Ielusc. O sistema Acafe, do qual o Ielusc faz parte, beira o colapso. Univille e outras instituições também correm sérios riscos. O Ielusc sente primeiro pois é o elo fraco do sistema: é uma das menores instituições. O sistema Acafe é responsável por 70% das vagas do ensino superior em Santa Catarina. Faz parte da estratégia dos tubarões do ensino privado levar o sistema Acafe à falência.

Aos olhos dos donos do Ensino Privado, Santa Catarina é um mercado em expansão. Basta apenas destruir as instituições comunitárias para que elas sejam privatizadas. São 120 mil alunos pagantes, ou seja, um potencial mercado para PUCs, Anhangueras, Estácios e outras tantas universidades que negociam ações nas bolsas de valores.

Não vejo, pelo menos nesse momento, outra solução para o impasse além de pressionar o poder público para que absorva os cursos superiores das universidades em crise. A melhor solução para os alunos, para Joinville e para Santa Catarina seria, sem sombra de dúvida, a federalização da Univille e a absorção dos cursos do Bom Jesus/Ielusc por esta nova federal.

Nós, ex-alunos e ex-professores, devemos nos mobilizar para impedir o fechamento do curso, garantir um ensino de qualidade e garantir que os estudantes não sejam abandonados.

Enquanto jornalista formado por esta instituição, enquanto ex-presidente do Diretório Central dos Estudantes Florestan Fernandes e agora, enquanto candidato a deputado federal pelo Partido Socialismo e Liberdade (PSOL), me coloco a inteira disposição dos alunos, professores e funcionários para tentar encontrar soluções para o Ielusc.

Também quero através desta carta me solidarizar com o Diretório Acadêmico Cruz e Souza (DACS) que trava uma luta pela transparência nas contas da Faculdade. Como entidade pública (apesar do caráter privado), é obrigação do departamento financeiro abrir as contas para a comunidade acadêmica. Esta é uma luta muito dura, iniciada antes da minha geração e continuada até hoje pelo movimento estudantil ielusquiano.

Venho me solidarizar também com o professor Gleber Pieniz, de quem fui aluno em mais de uma oportunidade, e parabenizá-lo pela coragem.

Grande Abraço

Leonel Camasão é jornalista formado pelo Bom Jesus/Ielusc, ex-presidente do DCE Florestan Fernandes e candidato a deputado federal pelo PSOL – 5050.

Comentários

Wesley disse…
Que coisa triste! não existe a possibilidade da Univille absorver este curso?
Leonel Camasão disse…
Acredito que seria uma boa solução, mas essa crise também já afeta a Univille. Precisamos de uma solução para o ensino superior em SC.
Wesley disse…
Aqui em Minas Gerais tem várias Universidades Federais, no estado todo deve ter umas 6, ou até mais! não sei ao certo.
E não são pequenas, são todas de grande porte, a UFJF, aqui de Juiz de Fora é imensa!
Mas tb não vejo instituições estaduais por aqui, como a Udesc.
Se bem que a Udesc de Jlle é tão deprimente q não serve de exemplo pra nada... ver sua grade de cursos me faz pensar como somos obtusos!

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