Peru: um país que decide seu modelo

Esquerda partidária e não institucional peruana se une a Humala para derrotar a possibilidade de volta do fujimorismo

Julia Nassif de Souza e Ignacio Lemus
de Lima (Peru)

Onze anos depois dos escândalos de corrupção, violações comprovadas de direitos humanos e fuga de políticos que marcaram a queda do fujimorismo, o Peru se prepara para o segundo turno das eleições presidenciais que apresentam Keiko Fujimori – filha do ex-presidente e, hoje, atrás das grades, Alberto Fujimori – em uma ferrenha disputa com o candidato progressista Ollanta Humala, que alcança pela segunda vez consecutiva o segundo turno.

Os números indicam que até 5 de junho o país viverá um clima de incertezas, após um primeiro turno em que Gana Perú, partido de Humala, superou, com 31,7% dos votos, as quatro forças apresentadas pela direita neoliberal: Keiko Fujimori (23,5%); o peruano-estadunidense Pedro Pablo Kuczynski, ex-assessor do Banco Mundial e ex-primeiro-ministro; o ex-presidente AlejandroToledo; e Luis Castañeda.

De acordo com a última pesquisa, do instituto de pesquisas Datum, de 15 de maio, o apoio dos grandes meios de comunicação à filha do ex-ditador tem dado resultado: Fujimori, com 46% das intenções de votos, supera Humala por quase 6 pontos de diferença. 8,6% dos peruanos ainda estariam indecisos.

Origem militar

Ollanta Moisés Humala Tasso, segundo de sete irmãos, é descendente do movimento militar Etnocacerista, grupo que nasceu para atuar na defesa dos direitos nacionais indígenas.

Como militar, em 1991, Humala prestou serviços combatendo os remanescentes do grupo guerrilheiro Sendero Luminoso, função pela qual o candidato não é muito recordado. Em 2000, ainda como militar, esteve na rebelião na cidade de Moquegua, no sul do Peru, contra o regime de Alberto Fujimori, enquanto o assessor presidencial Vladimiro Montesinos escapava do país em um veleiro.

Humala também conta em seu currículo com investigações e acusações contra ele, nenhuma delas comprovadas na Justiça peruana. Afastado do serviço militar em 2005, o candidato foi acusado de ter participado de um levante seguido de assalto em uma delegacia no qual seu irmão, o ultranacionalista Antauro Humala, terminou condenado a 25 anos de prisão por delitos de homicídio qualificado, rebelião e porte ilegal de armas.

Em 2005, como líder do Partido Nacionalista Peruano, postulou-se às eleições presidenciais, em aliança com o partido Unión por el Perú. Contando com o apoio anunciado do presidente venezuelano Hugo Chávez, disputou o segundo turno contra Alan García, que saiu vitorioso.

Cinco anos mais tarde, o Gana Perú, aliança do Partido Nacionalista Peruano com partidos de esquerda, apresenta Humala como a ْúnica força para enfrentar os quatro candidatos da direita neoliberal.


Escândalos e popularidade

Do outro lado, está Keiko Fujimori, que, com 34 anos, já carrega uma bagagem governista desde 1994 quando, aos 19 anos, enfrentou o turbulento divórcio dos pais e escolheu ficar ao lado do então mandatário. Os frutos dessa decisão ela colhe agora, alcançando altos índices de popularidade em sua primeira tentativa presidencial.

No ano 2000, na terceira gestão presidencial de Alberto Fujimori, durante os escândalos e denúncias de corrupção e violação de direitos humanos que já não se podia esconder, o presidente foge do país e só é detido em 2005, no Chile, em uma ação histórica da Justiça latino-americana.

Keiko, então, volta a morar nos Estados Unidos, onde completa sua preparação política inspirada na defesa de seu pai, que cumpre 25 anos de prisão.

Os escândalos que rondam a família Fujimori não evitaram que Keiko, em sua primeira tentativa à presidência, venha alcançando mais da metade das intenções de votos válidos no segundo turno. Mas, com tanta corrupção exposta e comprovada, prisões decretadas e fugas do país, por que a candidata tem tanta popularidade?

É o que explica o peruano Oscar Ugarteche, economista, presidente da Agência Latino-Americana de Informação (Alai) e coordenador do Observatório Econômico da América Latina (Obela). Ao analisar o processo eleitoral peruano, ele sugere que a filha de Fujimori conquista as novas gerações apresentando-se como a “jovem mãe, simpática, com um marido gringo e com três passaportes, que, vergonhosamente, são valores positivos para a sociedade peruana”.

Apoio dos movimentos

A imagem de boa moça, exemplo para a juventude desinteressada na política do país, já seria suficiente para conquistar tamanha votação de uma geração que não viveu ou não tem memória do autoritarismo fujimorista. Além disso, segundo , que teve que sair por três vezes do país na era Fujimori, “a direita promoveu tudo com tanta inteligência que Humala simboliza perda, autoritarismo, violação dos direitos humanos, expropriações, estatizações, controles de preços e tudo o que levou à hiperinflação que Alan García produziu nos anos 1980”.

Apesar das vinculações que são atribuídas a ele, no entanto, a maioria dos movimentos sociais no Peru o tem apoiado, nem sempre por identificação plena, mas sim por uma união dos movimentos e partidos da esquerda peruana contra um medo em comum: o retorno à corrupção e à “ditadura” fujimorista.

Lourdes Huanca, presidenta da Femucarinap (Federação de Mulheres Campesinas, Artesãs, Indígenas, Nativas e Assalariadas do Peru), confirma o apoio da organização e esclarece que essa decisão foi discutida e tomada pela maioria dos movimentos sociais que atuam em defesa, principalmente, da liberdade e da democracia, que estariam ameaçadas com a volta do fujimorismo.

Tais riscos são também apontadas por Ugarteche, que adverte ainda que, em uma eventual vitória de Keiko, Alberto Fujimori, o fantasma ignorado pela imprensa nesta eleição, seria solto no dia seguinte ao segundo turno.

Ao mesmo tempo em que a mídia esquece o ditador, ela tenta fazer colar a imagem de falta de autonomia da candidatura de Ollanta Humala, mostrando Hugo Chávez à sua sombra.

Hugo Chávez

Não é de hoje que isso acontece. Desde que o atual presidente, Alan García, assumiu, a mídia tem incentivado a campanha contra Chávez, comenta Ugarteche, assegurando que se trata de uma jogada política para diferenciar o governo “democrático” de García do “não democrático” do venezuelano, com o objetivo de polarizar a América do Sul e separar o Peru e a Colômbia de uma dinâmica política regional que está em curso.

O peculiar, acredita o economista, é que essa campanha não é acidental, pois estaria orquestrada pela direita venezuelana, que estaria assessorando Keiko Fujimori. Paradoxalmente, se o conceito que o imaginário midiático criou do “ditador” Hugo Chávez encontra paralelo em algum peruano, este seria Alberto Fujimori.

Ugarteche agrega que o Peru possui traumas das guerras contra Equador e Chile, das perdas ocasionadas pela inflação e das reformas de Juan Velasco Alvarado [presidente do autodenominado Governo Revolucionário das Forças Armadas, entre 1968 e 1975].

Segundo ele, cada vez que tais reformas, como a agrária e nacionalizações, são trazidas à pauta, a elite se mobiliza, temendo que a história se repita. A estratégia de associar Humala a Chávez seria a tentativa de colar no primeiro a ideia de perda (de privilégios).

Apesar dos traumas, o plano de governo de Humala se orienta para a distribuição de renda, geração de emprego e regulação dos recursos para a formação de um setor industrial produtivo que enfrente o grande setor financeiro-minerador, representado por Pedro Pablo Kuczynski e Keiko Fujimori.

Do Brasil de Fato

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