Um é bom, dois é demais, três é uma ameaça e um abuso

A anunciada candidatura do atual presidente do Sindicato dos Jornalistas de Santa Catarina para um terceiro mandato não é propriamente uma surpresa, mas significa uma séria ameaça à recente história de democracia no SJSC e é uma prova inequívoca de abuso do exercício do poder.
A perpetuação de lideranças nos mesmos cargos não é estranha ao movimento sindical dos jornalistas. Mas, ao longo do tempo, especialmente a partir da oxigenação dos conceitos e práticas sindicais que envolveu todo o sindicalismo brasileiro, iniciada na metade dos anos 80, do século passado, passou a ser questionada e, inclusive, denunciada como um desvio e um vício.
Não se trata de rejeitar a participação de nossas lideranças que tanto nos custam formar e qualificar. Tenho certeza que o atual presidente poderia encontrar outra forma de colaborar com o seu grupo, que não seja encabeçando a chapa.  Na Fenaj, por exemplo, por decisão da categoria em Congresso Nacional, não se obstrui a participação. Impede-se, de forma salutar, que o mesmo candidato concorra ao mesmo cargo, uma terceira vez seguida.
Essa regra é muito boa do ponto de vista pessoal, e melhor ainda para a entidade e para a categoria.  Sei, por experiência própria, que o segundo mandato já é, de certa forma, uma prorrogação.  Existe ainda o aspecto da vida pessoal e, principalmente, o lado profissional, com o afastamento prolongado do mercado de trabalho.
Normalmente recorre-se a uma falácia: o sacrifício é justificado pela ausência de outra liderança.  Na verdade, sufoca-se a renovação por razões particularistas e motivos muitas vezes inconfessáveis. Quase sem exceção, o terceiro (ou mais mandatos) costuma ser um desastre do ponto de vista administrativo e das ações sindicais e aponta para uma deformação inaceitável do processo político nas entidades e organizações sociais.
Infelizmente muitas lideranças que se identificam como de “esquerda” encontraram nos sindicatos uma forma confortável de sobrevivência. Viabilizam, às vezes sem o conhecimento da categoria, a segurança e as condições de trabalho que jamais vão encontrar no mercado.  A dedicação exclusiva às entidades é louvável e não pode ser uma profissão de fé.  Mas a efetivação dosindicalista profissional é o resultado de um processo de mutação de valores e princípios caros aos trabalhadores, e que foram abandonados e substituídos pelo afrouxamento dos padrões éticos que costuma acompanhar o chamado sindicalismo de resultados. E o que é pior, parece, pra muita gente, absolutamente natural.
O atual presidente pretende um terceiro mandato na presidência.  Mais três anos, ou seja, nove anos. Por quê? A resposta da burocracia será: o estatuto permite. Então, porque não um quarto mandato, um quinto..... Muda Sindicato!
Sérgio Murillo de Andrade
Ex-presidente da Fenaj, ex-presidente do Sindicato. Candidato a diretor na chapa VaMOS Juntos.

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