Primeiras impressões sobre os protestos no Brasil

1. A origem dos protestos está ligada a luta contra as tarifas nos transportes públicos. Estes protestos ganharam relativa força nos últimos 10 anos, iniciando na Revolta do Buzu (Salvador, 2003), nos protestos de massa - porém não tão famosos - em Joinville (2003), e nas duas Revoltas da Catraca em Florianópolis (2004-2005), que obtiveram as primeiras vitórias de redução de tarifas deste século.

2. A transfiguração do PT enquanto partido transformador, sua chegada ao poder central e adaptação à ordem vigente, criou uma "crise de representatividade". Em outras palavras, aos olhos do senso comum, nossa "única" possibilidade de mudança real "se perdeu". Sem alternativa, fortaleceu-se no seio dos movimentos sociais e da sociedade o sentimento de apartidarismo ou anti-partidarismo, culminando na criação de movimentos como o Movimento Passe Livre (MPL).



3. O MPL vinha em uma crescente, criando coletivos pelo Brasil, questionando as formas tradicionais de organização (partidos, hierarquias), sofrendo fortes influências de princípios organizativos e políticos do anarquismo. Ao mesmo tempo, os espaços tradicionais de lutas da juventude (UNE, Uniões Estaduais de Estudantes, juventudes partidárias, etc.) passavam a ser braços do governo federal, tendo pouca ou nenhuma participação nessas lutas.

4. Na última década, os movimentos contra as tarifas passaram a ser uma das principais pautas da juventude brasileira e a ter influência no recém criado PSOL e também no PSTU. Estes dois partidos não possuem as condições de dirigir os movimentos como outrora fizera o PT, já que não possuem a inserção e enraizamento social que o PT teve nos anos 1980/1990. O discurso da mídia de que "todos os partidos são iguais" passaram a fazer parte do senso comum, que muitas vezes, não difere o PT de outras agremiações de esquerda.

5. Os protestos de São Paulo em 2013 e a repressão policial sensibilizaram milhares de pessoas à irem às ruas, contra os aumentos no transporte. Esta mobilização obteve, em algumas semanas, o que os 10 anos de luta anteriores não haviam obtido. Quase 60 cidades brasileiras reduziram as tarifas de ônibus, sendo 14 capitais (destaque para Belo Horizonte, que fez duas reduções nesse curto intervalo de tempo).

6. Obviamente, estas reduções tem lastro econômico e pouco interferem na atual taxa de lucros dos empresários de transporte, principalmente, pela isenção do PIS/Cofins, promovida pelo governo federal. Apenas Natal (RN) reduziu as tarifas antes dos protestos. Em outras palavras, sem as manifestações, as prefeituras, em conluio com as máfias do transporte locais,  não teriam reduzido as tarifas, ampliando ainda mais as taxas de lucro dos empresários.

7. Para tentar resolver o impasse, o governo federal apela para mais redução de impostos (projeto já está no Senado, para desonerar o diesel), assim como pede aos governos estaduais que isente o setor de ICMS.

8. Portanto, devemos considerar essas movimentações como uma vitória do povo, porém parcial: a redução da tarifas é uma vitória imediata e traz benefício econômico para a população. Mas do ponto de vista estratégico, a eclosão desses protestos deverá atender as reivindicações históricas do empresariado de transporte: a desoneração fiscal em todas as esferas. Para isso, a presidente Dilma convocará governadores e prefeitos de capitais para debater o pacto de desoneração fiscal, que será chamado de "pacto pela mobilidade". Uma medida de caráter conservador, que não vai alterar taxas de lucros e tampouco alterar o modelo excludente e mercadológico do transporte, dando sobrevida a este sistema por uma década ou mais.

9. A imprensa, após ficar desarmada pela violência gratuita da PM em SP (principalmente contra os jornalistas), muda a estratégia e passa a defender os protestos, direcionando-os contra a corrupção e contra os partidos. Este direcionamento vai de encontro com o sentimento de indignação com a política e a crise de representatividade instalada no Brasil, abrindo espaço para segmentos fascistas nos protestos.

10. Ainda assim, seria prematuro considerar que as massas que estão indo as ruas cantar o hino nacional, ser contra a corrupção e voltando para a casa, são todas de direita. A grande maioria dessa juventude está tendo sua primeira experiência política, o que é pedagógico de certa maneira. Portanto, esta juventude deve ser disputada. A ausência de um movimento social fortalecido e de partidos com credibilidade torna a tarefa mais difícil.

Comentários

Danilo Viana disse…
vc realiza o protesto e fica provocando violência.

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